William Manning.
Corbis.


Depois de quatorze anos reencontrei meu pai duas vezes. O que significa muito para pessoas que tiveram rara convivência. O último reencontro foi em um dia ensolarado. Estava feliz, sorrindo e me abraçou quando lhe entreguei uma margarida branca. Não falamos muito, não era necessário. Tudo já estava lá, claro, maior que tudo ... o amor, o perdão, o agradecimento. Foi o que mais fiz ... agradeci. Como uma palavrinha pode ser tão abençoada. Obrigada.

Outras pessoas foram aparecendo atrás dele. Tantas e com tanta luz que chegavam a ofuscar meus olhos. Estávamos em uma estrada que cortava um campo verde, grama alta que se quebrava ao vento. Passado, presente ... todos lá.

Comecei a me afastar deles enquanto deixava uma mochila de viagem na beira da estrada, pegando só uma garrafinha de água. Ainda olhando para todos, sorri e acenei me despedindo. As pétalas finalmente iam dar em bem-me-quer ... todas elas. Então me virei para a estrada que ia dar longe e comecei a caminhar, sem olhar para trás, com uma luz dourada saindo do peito.


Ipanema, 1986.
Paulo Fridman.


Abriu minha mão e nela colocou uma pedrinha. Escura, com pequenas manchinhas claras ... lembrava uma antiga gravura japonesa de tão delicada. Veio acompanhada de um sorriso, aquele que puxa o meu. Ação e reação, mesmo quando não quero. Fazer o quê? Se você faz a vida boa feito uma bossa do Tom. Se comigo, você simplesmente não desafina. Eterna manhã de domingo.

E entro em casa assim. Vou pra cama assim. Sorriso no rosto e uma pedrinha na mão.


Fly Fernandez.
Corbis.


Estava indo pro cinema quando topei com um par de sapatos na calçada. O correto seria “quase tropecei” de tão inesperado o encontro ou seria, de tão distraída? Enfim, estava lá, bem no meio da larga calçada. Masculino, aparentemente usado, mas não velho.

E fiquei lá encarando aqueles dois pisantes na espera de alguma resposta. Lixo? Acho que ainda não temos o hábito de jogar fora sapatos desse jeito. Olhei pra cima ... havia um prédio, mas não ... não cairiam naquela posição quase perfeitamente alinhados. Podia ser uma brincadeira ... duvidei, já eram mais de nove horas da noite e ninguém nas proximidades.

Dava a impressão que o dono tinha acabado de tirá-los ali e ido fazer sei lá o quê. De repente, dar uma volta pelo quarteirão de um jeito mais livre, leve e solto, pra pegá-los depois na volta, quem sabe. Sem mais nenhuma idéia que desse conta da solução, decidi me desviar do par e continuar meu caminho.

Já se passou quase um ano e ainda me lembro disso. Pouca coisa pra pensar? Talvez. De qualquer forma, já tinha aprendido que encontramos pedras no meio do caminho e que, geralmente, são encontros bem marcantes. Mas sapatos? Disso não tinham me avisado.


Ana Lúcia Mariz.
Alma Secreta.


Pensativa de novo hoje. E isso não é um bom sinal. De verdade, às vezes me pego pensando coisas das quais não me orgulho ou simplesmente, preferiria não me dar conta.

Nossa capacidade de amar é inversamente proporcional ao tempo que vivemos? Quando jovens há aquele sentimento imenso no peito, generoso, desabrigado mesmo. Mas tanto o tempo passa, tanto nos deixamos quebrar pelos outros, que pouco parece sobrar lá no final.

Acho que depois dessa, vou ver tv.


Otto Stupakoff.


O carro pára no farol. Olho para o interior de um ônibus ao lado. Através da porta vejo um homem sentado nos degraus da escada. Um hábito comum adotado nestes tempos de trânsito caótico, ônibus lotados e pessoas cada vez mais cansadas.

O homem dorme com a cabeça apoiada no ventre de uma mulher. Também parece cansada ... em pé no degrau mais baixo, enquanto se recosta numa barra de ferro. Reparo na sua mão envolvendo a nuca do homem carinhosamente.

Simples assim. Nem mais, nem menos. O cansaço de todo dia. O amor do dia-a-dia. E aquela ternura que precisamos encontrar em um gesto, nem que seja num fim de dia.