Anderson Zaca.


O grão de arroz apodrece no armazém.
O gole d’água preso na torneira.
As grandes mãos não destrancam o armazém
e as pequeninas não alcançam a torneira.

Lágrimas são nada.
Porque eles já não as têm
e nós, as temos demais.


Trilhos. Essen, Alemanha.
Antônio Carlos Cardoso.


Acompanhantes

Do pequeno vidro na porta da emergência consigo ver uma cortina bege que termina pouco antes do chão, deixando à mostra os pés agitados dos enfermeiros e médicos em volta do leito.

Mais nada. No entanto, os olhos continuam grudados naquela cena, esperando algo, qualquer coisa. A mente completamente embaralhada... o que havia acontecido? Puxando os detalhes, buscando explicações.

Uma enfermeira sai detrás da cortina, caminha em minha direção, abre a porta. “Parente?”. “Filha, sou filha”. Estende uma das mãos me entregando uma bolsa-saco. “São as roupas dela”. Abre a outra mão. Na palma, a corrente com a medalhinha da Santa. Não, por favor, não sou eu. Não poder ser ... a minha mãe? O choro explode. “Calma, está tudo sob controle. Ela já está respirando”.

Sento na cadeira mais próxima. A corrente entre meus dedos. Presente de Natal. O último? O soluço queima. Uma solidão assustadora. Apenas eu e a medalhinha naquele longo corredor. Uma madrugada friorenta e silenciosa. Começo a rezar baixinho. A cada pensamento ruim, uma nova oração. Meu Deus, posso repetir oração? Gostaria de saber mais. Minha mãe devia ter me forçado a fazer comunhão, apesar do padre chato, dos sermões longos e dos joelhos ossudos doendo ao ajoelhar.

Escuto passos no fim do corredor. Um casal de velhinhos e uma moça. Vão se aproximando e sentam-se perto. Ele reclama de dor passando a mão sobre o abdômen, a senhora pousa sua mão sobre a dele e o acalma. A moça vai buscar ajuda.

Um casal mesmo. Queria muito que meu pai estivesse vivo. Queria muito que tivessem um ao outro. Minha mãe merecia ter uma mão para segurar ... que a entendesse e, não apenas a minha que nem sempre sabia amparar a sua.

A moça volta com um enfermeiro que leva o senhor para sala de emergência ao lado. A velhinha tenta acompanhá-lo, mas sua entrada é impedida. "Nada de acompanhantes". Certa vez, ouvi que não importa nada que aconteça na sua vida, quantas voltas dê, o que faça ou deixe de fazer, no final vai estar só. Minha mãe está sozinha lá dentro, ele está só ... e eu, também ficarei?

Aperto a medalhinha. Volto a rezar. A cada pensamento ruim, uma oração repetida.


Mulher.
Alexandre Wittboldt.


Medo.
De esquecer.
De não esquecer.


São Paulo, 1990.
Cristiano Mascaro.


Passei horas achando que.
É isso que dá começar o dia lendo horóscopo...