Kangoro Nakagawa.
Corbis.


Lembro como chegou. Um montinho de pêlos pretos em uma cesta com outros tantos montinhos de pêlos. “Filha, é o seu presente. Pode escolher.” Meus olhos brilharam. Puxei pro colo a mais topetuda. Você. Linda.

E me acostumei com aquela coisinha pequena me seguindo pela casa inteira. Pedindo colo. A dificuldade para aprender a fazer xixi no lugar certo. Alegria sincera me recebendo em casa por mais tarde que fosse. O olhar interesseiro ao me ver abrindo a geladeira. Os apelidos que mudavam de acordo com o meu humor. Gorda. Folgada. Tampinha. Mais mau humor, né?

Seus pêlos agora já são acinzentados. Não enxerga direito, mas continua me seguindo pela casa. Mesmo aos tropeços e cabeçadas. Desaprendeu a fazer xixi no lugar certo e eu aprendi a ter paciência. Não tenho mais seus pulos, mas me faz sorrir quando levanta a cabecinha ao me ouvir abrir a porta. Quem diria que seria difícil fazer você comer algo.

Agora preciso deixar você ir embora. Depois de 19 anos. Tanto. A última lição depois de ter acompanhado a sua vida todinha. De cabo a rabo, e sem nenhum jogo de palavras idiota. Espero que não esteja errando com você. Espero que seja o melhor. Vou sentir muito sua falta, Pequena.


Sinais do Nada, 2004.
Marcelo Pallotta.


Acordou com torcicolo. Dor aguda e um queixo apontando pra cima em uma impiedosa manhã de segunda. Tinha coisas urgentes para resolver e saiu de casa mesmo assim. Sem carro. Mais seguro.

Reparou no teto quebrado do elevador. No céu azul. Topos de prédios. De todos os tipos. Um grafite colorido. O emaranhado de fios indo de um poste ao outro. Nas folhas de um Salgueiro-chorão. Uma mulher de lenço azul nos cabelos limpando janelas. O teto do escritório precisando de uma pintura nova.

Dia longo. Esboçou um sorriso quando esticou o olho para o relógio. Hora de correr para o acupunturista. Deu de queixo pra um céu aberto e estrelado. Céu de verão. Mormaço bom. Um gato em cima do muro rindo do seu pescoço. O telhado vermelho de uma casa com cheiro de Dama da Noite. Sempre gostou desse nome.

Consulta cara. Alívio instantâneo. Daquele tipo que chega a comprovar a existência de Deus. Saiu caminhando devagar e fez jus a liberdade de movimentos despudoradamente até chegar em casa. Banho, jantar e cama. Era a ordem do dia. Descansar depois de tudo aquilo. Meia-hora depois, levantou-se e foi até a varanda. E não é que o céu é lindo demais?!


Antônio Gaudério.


- Bem-vindo a terra dos cegos.
- E ... todos são cegos? Todos mesmo?
- Sim. Aqui só não vê quem não quer.