Tiradentes, Minas Gerais, 2005.
Pedro David.

Fixações

Acordei um dia com Clara me encarando sentada no chão. O rostinho apoiado na beirada da minha cama. Olhar manso, fixo no meu. Gravidade traída pelo sorriso quase travesso.
Conquistou-me aquela pequena que só sabia desenhar e colorir olhos em todos os papéis que conseguia. Onde estavam as casas, as pessoas, os animais, todas aquelas figuras tão costumeiras?
Logo passou dos desenhos para os recortes, difícil encontrar uma só revista ou jornal em toda casa que ainda tivesse um par de olhos. Todos guardados numa caixinha de papelão amarelo.
A descoberta da “mágica” da cola originou um ritual. Toda manhã começava com a escolha criteriosa de um dos olhos guardados na caixinha, para depois ser cuidadosamente colado na parte interna de um dos seus pulsos.
Falava sozinha a maior parte do tempo numa língua toda sua. Sons estranhos e belos... um quase cantarolar que me fazia pensar num país exótico. Persistente companhia, ela, a caixinha e a melodia seguindo-me por todos os lugares.
Lembro-me de um passeio em que topamos com um gato no meio--fio. Penduradas no pescoço fino, coleira e plaquinha. Nélson. Atropelado. Abaixou-se e ficou a encarar o olhar embaçado do gato. Acariciou sua cabecinha suja, sussurrou algo no seu ouvido e fechou os olhos do animal.
Voltamos a andar até que a curiosidade mandou mais forte e perguntei o que tinha dito para o gato.
— Que a gente não vai ter saudade daqui.
Meu rosto queimava. Vontade de pedir desculpas sem nem saber o porquê. Aliviada por um simples pedido da pequena. Desde então, me ficou insuportável a idéia de um mundo sem sorvete de chocolate.
Cresci. Há muito não vejo Clara. Mas sua ausência não existe, ainda tenho seu olho fixo em mim. Tatuagem no meu pulso direito.

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